20/06/2005 15:35
Nesta terra de mensalão, de homens nojentos e corrompidos, nem dá gosto viver, não é mesmo? Dá vergonha de ser brasileiro.
Mas vou dar uma de Poliana e colocar aqui um texto que escrevi mês passado a respeito de uma pessoa do povo que, como muitas que já observei, parecem ter nascido num poço de felicidade.
Ela acorda todos os dias às 4 da matina e toma duas conduções longas para chegar ao trabalho, ganha pouco mais que o salário mínimo, tem dois filhos para criar, mas não tem nunca um momento de ódio ou desânimo. Pelo menos, eu nunca vi! Passa o dia trabalhando sem parar, dando risada e de bom-humor. Não quero dizer que ela não precise de dinheiro, é lógico que seria bem-vindo, mas não parece ser condição anterior à sua felicidade.
Apresento a vocês a Lu, uma pessoa sem lamentações, e cuja alegria de viver dá uma pontadinha de inveja!
É só um trechinho de uma conversa que tive com ela:
Estou olhando no mural da firma as fotos dos animaizinhos de estimação dos funcionários. Gatinhos, cachorrinhos, um furão... a copeira, muito simpática, passa por ali com a bandeja na mão, sorrindo. Diz para mim:
- Olhando os bichinhos?
- Tô. E Você, Lu, não tem bichinhos em casa?
(O Lu dela não é nem de Lúcia nem de Luciana, é algo indecifrável que só o povo do Nordeste consegue criar: Ludenércia, Ludecrécia, sabe Deus o quê.)
Ela - Meu marido tem uns passarinhos. Mas eu só crio um casalzinho... diz, marota (são os filhos dela).
Encosto no umbral da porta pra puxar conversa. Enquanto conversa ela vai passando o paninho branquinho na máquina de café, limpa que limpa, depois lava louça, deixa tudo tinindo, move-se rapidamente de um lado pro outro. O tempo todo sorrindo.
- E o seu filho? Arrumou emprego? pergunto.
- Ainda não. Mas está fazendo um curso muito bom. - diz, satisfeita e orgulhosa.
- Mas curso de quê? De informática?
- Ah, isso eu não sei. É um tal de microlins.
- Mas o que é? Não é computador?
- Não, quando eu fui pagar o curso, o moço disse que é um curso completo, tudo profissional, tem tudo, não é só computador, tem as coisas que precisa tudo. Ele disse: seu filho já tem 16 anos, não adianta só informática, precisa saber tudo.
- Ah digo sem entender exatamente o que é-, mas tudo bem. E ele sabe mexer em computador?
- Ah, sabe. Não tenho em casa, mas na escola tinha, e naquele negócio que junta os meninos do projeto Bater Lata também tinha... então ele ia lá e aprendia, mas eu tirei de lá, porque nem tinha apostila, ficavam só brincando.
- Ah, que bom, pelo menos ele tem algum conhecimento, né.
- Agora, eu! De computador só sei desligar! Quando vou limpar e o Geraldo manda: Lu, vai desligando tudo, eu já sei! aperto o botão e tchuc! Se a luz apaga, desligou... fala e dá uma sonora risada.
Saio da cozinha acreditando que a vida devia ser muito menos complicada se a gente pensasse como a Lu!
enviada por Penélope
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